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Vitória-ES, Segunda Feira, 21 de Maio de 2012
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Homenageado

MAURÍCIO DE OLIVEIRA - A insuperável leveza do som



Maurício de Oliveira: glória da arte musical capixaba, destaque na galeria dos homens honrados deste Estado, toque sutil nas cordas de seu violão

Texto: Marilza Bigio
Fotos: Tom Boechat

Ele mostra as mãos finas, de dedos compridos, a pele quase cor de rosa, as pontas dos dedos sem calos, sem nenhum sinal do quanto têm trabalhado arduamente nos últimos 65 anos. Maurício de Oliveira faz 77 anos neste 19 de julho - embora sua carteira de identidade mostre um ano a menos, pois seu pai levou esse tempo para registrá-lo, coisas da época, início dos anos 20, quando tudo era mais difícil. Ainda mais para um pescador como seu Sebastião Rodrigues de Oliveira. Na casinha da praia do Suá onde nasceu e cresceu, a mãe, Maria Porto de Oliveira, não teve muito trabalho com o menino até os 11 anos, quando ele resolveu que queria porque queria aprender violão e ser músico - vocação que já mostrava ser firme desde os 6 anos, quando aprendeu cavaquinho. Aí a coisa ficou meio séria, porque naquela época, e ainda mais aqui no Espírito Santo, vida de músico "não dava camisa a ninguém", como se dizia.

Pior é que já havia um caso na família, de um músico - bom músico, diz Maurício -, o violonista José Inácio Oliveira, seu tio, que morrera ainda jovem e já destruído pela bebida, como para comprovar a tese de que músico ou é vagabundo ou bêbado. Uma tese que, pouco depois - anos 30 -, levou a polícia do Estado Novo a examinar as mãos dos homens que detinha, para ver se tinham calos. Os calos nas pontas dos dedos denunciavam o vagabundo violonista, que ia imediatamente em cana.

Daí voltamos às mãos de Maurício. Nem os gorilas do Estado Novo (ele era ainda um menino), nem depois os meganhas do golpe de 64 - quando aconteceu mais ou menos a mesma coisa -, desconfiariam da profissão daquele jovem magro e educado, bem falante e sempre bem vestido (há muitos anos ele só usa calças e sapatos brancos, impecáveis). Ao olhar suas mãos, veriam, como ainda hoje, as pontas dos dedos cor de rosa, lisinhas, leves e ágeis. "Isso é lenda, um violonista não precisa ter calos... aliás, se for bom violonista, não os terá", diz Maurício. E nos mostra ao violão, na sua bela Canção da paz, porque é o maior músico capixaba e um dos maiores do Brasil, o mais conhecido intérprete de Villa-Lobos aqui e no exterior, uma das maiores contribuições pessoais ao rádio de nosso Estado e, com suas composições, a maior contribuição individual de um instrumentista à MPB.

A Canção da paz, sua obra mais significativa, e a mais conhecida, foi composta nessa época e apresentada na Polônia. Há uma gravação feita em 72, mas os discos que têm a composição estão esgotados. Outra contribuição maravilhosa dele ao acervo musical brasileiro foi a sua interpretação, ao violão, das obras feitas para piano pelo grande compositor Ernesto Nazareth, disco lançado em 80 em homenagem aos 50 anos da Fundação Jônice Tristão. Outros sucessos foram "Maurício de Oliveira interpreta Dilermando Reis, de 71, e Maurício de Oliveira erudito e popular, de 85. E sua última contribuição foi o CD feito para a Unimed - que o distribuiu como brinde aos médicos associados -, em dezembro de 2000, intitulado Encontro - Maurício de Oliveira e Ernesto Nazareth, cuja capa tem texto inspirado de Marien Calixte.

IDOLATRIA DOMÉSTICA

"Olha só a vista daqui!", mostra, meio emocionado, meio orgulhoso, à porta de sua casa numa das colinas do Barro Vermelho, em Vitória. É a casa onde mora há décadas com dona Luiza, sua mulher há 53 anos, e que hoje com ele curte a chegada de mais uma neta, Maria Vitória, aos 15 dias enchendo de novidades, correrias e sorrisos o confortável lar dos Oliveira. Um lugar onde Maurício não fala, pontifica; não pede, manda; não deseja, já tem.

"Isso aqui é uma idolatria só", diz Maurício meio encabulado. Porque num dos quartos da casa, em meio às lembranças, quadros, fotos, prêmios registrados em diplomas emoldurados e violões, dona Luíza mostra orgulhosa as peças mais significativas. A idolatria da família foi sempre o estímulo para continuar trabalhando - e também motivou seu filho Tiãoe seus netos Geraldo e Lucas (todos violonistas), além de sua neta Antônia (pianista), a fazer da música uma presença eterna na família.

Não está ali o primeiro violão, um Giannini comprado na Casa Guitarra de Prata, na Rua da Carioca, no Rio de Janeiro, nem o primeiro disco, um compacto simples, de um lado o baião Ardiloso, do outro o choro Esplanada, gravado em 52 pela Continental Gravações Elétricas Ltda - e que foi a primeira obra fonográfica gravada por um capixaba. Mas estão lá quase todos os LPs gravados como violonista do conjunto de Hélio Mendes, um amigo e companheirão.

"Toquei com Hélio por mais de 20 anos", diz Maurício, mostrando cada vinil antigo: Weekend no Rio de Janeiro, gravado em 61 na Cidade Maravilhosa; Weekend em Guarapar", que recebeu o prêmio Euterpe de 61, do jornal "Correio da Manhã", entregue pessoalmente pelo governador da Guanabara, Carlos Lacerda, em festa no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Antes disso, ele já havia gravado dois discos, pela Musiplay, em 60.

A grande emoção foi o convite para ir a Varsóvia, Polônia, já em 55, receber do Ministério da Cultura polonês o prêmio de segundo lugar, medalha de prata, no concurso internacional de violão promovido na terra do sempre citado e querido Adam Emil, o cônsul polonês em Vitória que tanto fez para divulgar as coisas capixabas em sua terra. "Um grande homem, um amigo, com quem eu havia trabalhado muito tempo na Rádio Espírito Santo", conta, meio emocionado, o sensível Maurício, enquanto dona Luíza mostra vaidosa o quadro da menção do prêmio.

UM CARA DIREITO

No conjunto de Hélio Mendes, ele tocava guitarra. "Era uma big band, e foi considerado o melhor conjunto musical do Brasil, em 66. Gravamos seis LPs e um compacto duplo. As músicas de sucesso da época eram a americana e a francesa", lembra o instrumentista. E explica que exatamente por causa da enorme influência da música estrangeira ele lutava muito para divulgar o violão no Espírito Santo. "Pensavam que eu queria aparecer, mas eu queria que o violão aparecesse, pois para mim é o instrumento mais completo que já existiu. Antes, o piano era o mais tocado, depois houve uma época rápida de hegemonia do acordeon, mas em seguida o violão, que já era a alma da música de regional tocada nas rádios e bailes, veio para se estabelecer, pois é leve, portátil, e tem grandes recursos. A forma de tocar e os instrumentos que hoje são mais utilizados - guitarra, sete cordas, até mesmo o baixo, em sua atual concepção - tudo se originou no crescimento do violão, que antes era tocado por alguns. Hoje os violonistas se contam às centenas".

"O violão se fixou, aqui no Espírito Santo, parece que ainda no século 18, depois que se estabeleceu por aqui um instrumentista chamado Lasvacas, espanhol, que tocava na verdade a viola espanhola, e foi a primeira influência musical estrangeira não só no nosso Estado, mas no Brasil. Quem descobriu isso foi o Rogério Coimbra, pesquisador de nossa cultura e principalmente de nossa música. Ele constatou a presença desse espanhol aqui na ilha, por três anos, antes de ir para a Bahia. A história oficial dá que ele chegou direto na Bahia...", diz Maurício com expressão zombeteira.

E o que diz o pesquisador Rogério Coimbra de Maurício? "É o músico mais importante do Estado, um dos maiores do País, e jamais saiu de Vitória para viver em outro lugar. É um dos maiores e melhores amantes da nossa Capital", começa. E não quer parar: "É músico cuja obra tem uma regularidade impressionante, um violonista coerente, sempre voltado para a música brasileira. É referência mundial da nossa música, respeitado sobretudo pela sua interpretação genial e conseqüente divulgação da obra de Villa Lobos. Mas, sobretudo, é um cara direito!"

Maurício foi também, segundo Coimbra, um grande incentivador da música de regional. O violonista Zé Nogueira, o homem que deu o primeiro violão e ensinou o rei Roberto Carlos a tocar, e que até hoje mantém viva a chama da música de regional, nos bailes e nos programas da Rádio Diocesana, de Cachoeiro de Itapemirim, concorda em gênero, número e grau: "O Maurício foi a pessoa que mais ajudou a divulgar os músicos e a música de regional neste Estado e também no Rio, e por onde ele andasse, sempre tocando e recebendo homenagens e prêmios. Ele nunca deixou de mencionar esse tipo de música, que está na raiz mesma da música popular brasileira, e que é uma música difícil, precisa o sujeito estudar muito, e precisa muito dessa divulgação para não morrer".

PERTO DE DEUS

O garoto Maurício, filho e neto de pescadores, mostra, no seu pequeno quarto de lembranças, a casinha onde nasceu e cresceu, na praia do Suá: "Esta é a casa, e este aqui é o barco do meu pai, bem em frente a ela", diz, comovido. E conta: "Eu tinha duas saídas, ou ia virar pescador, como meu pai e meu avô, ou teria de enfrentar uma luta muito séria para ser músico, como meu bisavô português, José Ignácio de Oliveira. Eu preferi o caminho mais difícil".

Ele sorri lembrando que começou a tocar com 11 anos, e foi "descoberto" daí a um ano, quando tocava com seu irmão José na Festa de São Pedro, na praia do Suá, pelo diretor artístico da Rádio Espírito Santo, Clóvis Gomes, que os convidou a ingressar no rádio. Formaram então a dupla Irmãos Oliveira, que ensaiou durante dois anos, de graça, na rádio, pois enquanto o governo federal não desse a concessão a rádio não poderia ir ao ar. A rádio só estreou mesmo sua programação em setembro de 40, e as atrações eram a Orquestra de Clóvis Cruz, o Regional de Luís Noronha, a dupla sertaneja Sebastião e Peixinho e os Irmãos Oliveira. Maurício tinha de tocar com uma autorização do Juizado de Menores: tinha 13 anos.

Maurício tem sua história ligada à da Rádio Espírito Santo por muitos anos. Todo novo disco gravado, toda homenagem, todo prêmio, tudo isso era noticiado pela rádio como se fosse ela mesma a vencedora, tamanho o carinho com que tratava o que diz respeito a um de seus primeiros contratados. Foi de certa forma como representante da rádio - e, claro, da nossa música, que ele esteve por duas vezes em Portugal, terra de seus bisavós. "Toquei em Lisboa, Sintra, Cascais... os portugueses nos tratam como um dos seus, são acolhedores e amigáveis. Disseram que eu era mais português do que muitos de lá, por causa do que eu conhecia sobre a santa terrinha e também, acho, por causa da indiscutível vocação que nós, brasileiros, temos para nos comunicar". A música de Maurício correu mundo...

Será a música uma espécie de vício? Maurício não cai nessa definição tão simplista. "Música é estado d'alma. Tem uma grande relação com o espírito. Acho que o músico está mais perto de Deus. Veja o que diz a Bíblia, que quando Jesus nasceu houve um coro de anjos..." É impressão da repórter, ou o homem está assim meio engasgado, e os olhos assim meio molhados pela emoção? "Música é matemática viva, que você sente no coração"... ele se recompõe, readquire aquela firmeza que é o seu normal, depois de um momento de pura entrega ao seu amor pela música. E termina, enfático: "Você não vê no jornal que um músico matou a mãe e os filhos, não vê músico chutando cachorro, nem matando passarinho. Isso nunca acontece... a música traz uma sensibilidade de fora para dentro do corpo, o sujeito fica tomado pela elevação de espírito que ela proporciona. Mas a música também é profissão, e uma profissão difícil, difícil para estudar, para aparecer, para se aprimorar, para fazer sucesso. Isso quando o músico preza a música..."

DISCOGRAFIA

- Compacto simples com as músicas Ardiloso e Esplanada - 1952 - 1ª obra gravada por um capixaba
- Maurício de Oliveira e seu violão - 1960 - Gravado na Musiplay
- Um violão e novas emoções - 1960 - Gravado na Musiplay
- Hélio Mendes/ Weekend no Rio - 1961 - Gravado no Rio de Janeiro
- Hélio Mendes/ Weekend em Guarapari - 1961 - Ganhou o Prêmio Euterpe, recebido do governador Carlos Lacerda, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro
- Hélio Mendes e seu Trio Vagalume - 1963 - Época da bossa nova, também premiado
- Hélio Mendes, seu piano e seu conjunto - 1964 - Maurício fez os arranjos musicais
- Hélio Mendes, seu piano e seu conjunto - 1966 - Também neste, arranjos de Maurício
- Villa-Lobos e o violão/ volume 1 - Lançado na Europa, Estados Unidos e Japão pela gravadora London
- Villa-Lobos e o violão/ volume 2 - Mesmo percurso internacional do anterior
- Violão em tempo de valsa - 1968 - Também lançado mundialmente pela gravadora London
- O Concerto de violão de Villa-Lobos - 1970 - O mesmo do anterior
- Maurício de Oliveira interpreta Dilermando Reis - 1971 - Lançado pela UFES
- Canção da Paz - 1972 - A composição mais conhecida
- Maurício de Oliveira interpreta Ernesto Nazareth ao violão - 1980 - Lançado em homenagem aos 50 anos da Fundação Jônice Tristão
- Maurcício de Oliveira Erudito e Popular - 1985 - Ainda encontrável em algumas lojas
- Encontro/ Maurício de Oliveira e Ernesto Nazareth - 2000 - Disco promocional lançado pela Unimed com distribuição restrita aos seus associados médico

TÍTULOS E HONRARIAS

- Medalha de Serviços Musicais prestados ao Estado - 1951 - Câmara Municipal de Vitória/ES
- Medalha de Prata - 2º lugar no Concurso de Violão - 1955 - Ministério da Cultura da Polônia
- Medalha de Prata SEREIA - símbolo da Cidade de Varsóvia - 1955 - Cidade de Varsóvia, Polônia
- Diploma de Músico Violonista - 1963 - Ordem dos Músicos do Brasil - ES
- Diploma de Melhor Solista Popular - 1964 - Cidade do Rio de Janeiro
- Honra ao Mérito por destacar o ES no cenário nacional - 1964 - Rotary Clube de Vitória 
- Troféu Euterpe O Melhor Solista Popular - 1964 - Jornal "Correio da Manhã"
- Troféu Villa-Lobos O Melhor Disco de Villa-Lobos
- 1967 - Ordem dos Músicos - RJ
- Medalha de Bronze/ 1º Salão do Compositor Capixaba - 1971 - UFES
- Placa de Prata Quem é Quem - 1972 - Jornal "A Tribuna" - ES
- Placa de Prata Noites Capixabas - 1977 - Fundação Cultural do Espírito Santo
- Placa de Prata/ 2º Salão do Compositor Capixaba - 1977 - Ufes
- Placa de Prata Cidade de Vitória 426 anos - 1977 - Prefeitura de Vitória - ES
- Diploma 1º Concurso de Bandas Escolares - 1977 - Tamoyo APE
- Medalha Jerônimo Monteiro Capixaba que mais se destacou na música - 1977 - Governo do Estado
- Medalha de Honra ao Mérito - 1979 - Prefeitura de Vitória - ES
- Medalha de Honra ao Mérito Carnaval - 1979 - Prefeitura de Vitória - ES

OBS - Discografia e Títulos, além de outras informações, estão no site Enciclopedia/ Maurício de Oliveira e Trajetória da Música Capixaba, pesquisa monográfica realizada para a Ufes, em 96, pelo radialista e professor de História José Carlos Rabello Filho - endereço na Internet: www.capixabaon.com.br/enciclopedia



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